Nas entrelinhas: A normose

Publicado em Eleiçoes, Justiça, Lava-Jato, Memória, Política

Segue o jogo de esconde-esconde de Lula, apesar das evidências cada vez mais fortes de que suas campanhas e de Dilma foram irrigadas com dinheiro desviado da Petrobras e de obras públicas

Devemos ao educador e psicólogo francês Pierre Weil o conceito de “normose”, que ele resumiu assim: “o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria de pessoas de uma determinada sociedade, que levam a sofrimentos, doenças e mortes. Em outras palavras: que são patogênicas ou letais, executadas sem que os seus autores e atores tenham consciência da natureza patológica”.

Doutor em psicologia pela Universidade de Paris, Weil é autor de mais de 40 livros. Segundo ele, a normose é uma ameaça à humanidade e as outras espécies vivas do planeta, uma fonte de sofrimentos e tragédias. O autor chegou a essa conclusão depois de ter procurado ser normal e bem-sucedido: “A sociedade, por meio dos meus pais, moldara um ser humano bem-sucedido aos 33 anos. Um homem de sucesso porque eu tinha tudo: tinha a minha residência, tinha a minha casa de campo, tinha a minha piscina, tinha meu cargo na universidade, tinha o meu cargo junto ao presidente do maior banco da América Latina, tinha o meu consultório, tinha o meu livro best-seller, tinha entrevista na televisão, tinha, tinha, tinha, tinha… E minha normose era, justamente, ter. Havia introjetado toda uma civilização do ter. Eu tinha, tinha tudo e estava muito infeliz, não era um homem realizado. Conformado a este contexto, eu acabei tornando-me normótico.”

Weil foi uma espécie de guru odara. Viveu e morreu no Brasil, onde chegou em 1948, para treinar equipes do Senac no Rio de Janeiro. Mudou-se para Belo Horizonte em 1958, onde deu aulas de psicologia na UFMG. Em 1972, casou-se com a professora de Yoga Maria José Marinho, dedicando-se ao estudo do laya yoga na cura de depressões, insônia, ansiedade e angústias. Faleceu em 2008, em Brasília, para onde havia se mudado em 1987, para fundar uma universidade holística. Estudioso do hinduísmo, do budismo e do conceito de “maia” (ilusão, em sânscrito), foi durante um retiro com lamas tibetanos que chegou à conclusão de que a normalidade podia ser patológica e patogênica.

A quebra de sigilo dos depoimentos da marqueteira Monica Moura e seu marido, o publicitário João Santana, pelo ministro-relator da Operação Lava-Jato, Edson Fachin, de certa forma desnuda a “normose” do caixa dois eleitoral. Os dois são investigados por indícios de terem recebido dinheiro de caixa dois por trabalhos em campanhas eleitorais. O ministro também retirou o sigilo da delação de André Luis Reis Santana, funcionário do casal. Mônica revelou aos procuradores as circunstâncias da contratação dela e do marido em 2005, para a campanha à reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ela, durante o escândalo do mensalão, Lula teria pedido ao então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que convidasse João Santana para fazer a campanha à reeleição. A condição para a contratação, segundo a marqueteira, era aceitar que parte do pagamento fosse feito “por fora”, em espécie, pela empreiteira Odebrecht.

Palavra final
Mônica disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabia do valor total da campanha e autorizava o acerto dos valores mais elevados. Durante a negociação, revelou, Palocci teria dito que “tinha que falar com o Lula porque o valor era alto, e ele não tinha como autorizar sozinho”. Segundo a marqueteira, na reunião que fechou o acordo, Palocci disse que “o valor da campanha (total) tinha sido autorizado pelo presidente”: R$ 24 milhões para os dois turnos da eleição, dos quais R$ 13,75 milhões pagos de forma oficial e R$ 10 milhões pagos de maneira não oficial pela Odebrecht. Mônica contou que viajou várias vezes pra São Paulo em 2006 e 2007 para receber os pagamentos em dinheiro vivo, “em sacolas, caixas de roupas e de sapatos”.

Responsável pelas campanhas eleitorais de Lula em 2006 e 2010 e de Dilma Rousseff em 2014, João Santana confirmou em seu depoimento que o ex-ministro Antonio Palocci sempre afirmava que as “decisões definitivas” sobre os custos e pagamentos da campanha dependiam da “palavra final do chefe”, ou seja, supostamente, o ex-presidente Lula. Em momentos críticos de inadimplência, durante as campanhas, depois de tentativas frustradas de Mônica para receber os pagamentos, Santana contou que dava o “alerta vermelho” a Lula. Numa das ocasiões, Lula pressionou Palocci, então ministro da Fazenda, que colocou a empresa Odebrecht no circuito.

Como sempre, Lula nega as acusações. Segue o jogo de esconde-esconde com o Ministério Público e a Justiça Federal, apesar das evidências cada vez mais fortes de que as campanhas de Lula e Dilma foram irrigadas pela Odebrecht e outras empresas, como a OAS, com dinheiro desviado da Petrobras e de dezenas de obras públicas. Nada disso, porém, abala o ânimo petista em relação à candidatura de Lula a presidente da República em 2018. É a normose.