Nas entrelinhas: Discurso pós-impeachmnent

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Dilma não se sente espiritualmente derrotada. Foi pra cima da antiga oposição e dos ex-aliados a favor do impeachment

“Estrambonático, Palipopético/ Cilalenítico, Estapafúrdico/ Protopológico, Antropofágio/ Presolopépipo, Atroverático/ Batunitétrico, Pratofinandolo/ Calotolético, Caranbolambolu/ Posolométrico, Pratofilônica/ Protopolágico, Canecalônica” canta o compositor Nélson Sargento, num dos seus sambas antológicos, Idioma esquisito, no qual ele arremata: “É isso aí, é isso aí/Ninguém entendeu nada/Eu também não entendi/(Então eu vou repetir)”. É mais ou menos essa a moral da história do depoimento da presidente afastada, Dilma Rousseff, sobre as “pedaladas fiscais” e os decretos ilegais que lhe são imputados no crime de responsabilidade, ontem, no Senado. O cidadão comum não entendeu nada sobre isso.

A discussão técnica sobre a acusação que pesa contra Dilma, isto é, o cometimento de crime de responsabilidade, acabou em segundo plano. Na condição de ré, Dilma aproveitou o julgamento do pedido de impeachment para fazer a defesa do seu governo e da sua passagem pela Presidência. Portou-se com altivez, como deveria uma presidente eleita, mas como se estivesse debatendo com os candidatos de oposição em plena campanha eleitoral, não num julgamento. A resposta à principal pergunta feita pelo presidente do PSDB, Aécio Neves (MG), ilustrou bem essa postura. O tucano questionou Dilma por negar a existência da crise econômica durante a campanha, Dilma rebateu acusando a oposição de sabotar o governo desde o dia seguinte à eleição. O problema é que os cidadãos se posicionam não em razão do que Dilma pensa de seu governo, mas dos resultados que obteve.

Embora admitisse que também erra, Dilma não fez nenhuma autocrítica, assim como seus aliados. Nas galerias do Senado, de um lado, estavam os jovens apoiadores do impeachment que comandaram as manifestações contra seu governo; de outro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado do compositor Chico Buarque, e ex-ministros. Dilma comportou-se como quem não se sente espiritualmente derrotada. Foi pra cima da antiga oposição e dos ex-aliados que agora votam a favor do impeachment. Dezenas de vezes afirmou que está sendo vítima de um golpe de Estado, chamou o presidente interino, Michel Temer, de usurpador e foi evasiva em relação às perguntas mais comprometedoras.

Nas ruas, as manifestações de apoio a Dilma na Esplanada e em algumas cidades demonstraram o contrário, ou seja, a derrota política. Foram manifestações de pequena monta, que reuniu petistas e militantes mais combativos de movimentos sociais. Em São Paulo, houve choque entre manifestantes que fecharam a Avenida Paulista com fogueiras. Um balanço geral, porém, mostra uma presidente da República isolada da sociedade, sem grande capacidade de mobilização, cuja cassação iminente não emociona nem mesmo os quadros dirigentes do PT. Os discursos de apoio dos petistas durante o depoimento de Dilma, com objetivo de confortá-la, já fazem parte da narrativa pós-impeachment, que está sendo construída para preservar o chamado “legado político” do ex-presidente Lula.

Favas contadas
Há um nonsense total. Um suposto “golpe de estado” que leva nove meses tramitando no Congresso, cujo ápice é a presidente da República depondo durante um dia inteiro perante seus algozes no Senado, diante dos presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, e do Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB), os demais poderes da República. Um golpe com Exército, Marinha e Aeronáutica nos quartéis, transmitido em tempo real pela tevê e a internet para o mundo inteiro, sem que o povão mova uma palha para defender a presidente eleita com 54 milhões de votos, os mesmos que elegeram o vice que ela escolheu e a quem agora atribui a chefia da conspiração para apeá-la do poder. Dilma comparou seu julgamento a uma eleição indireta; em outra passagem, disse que espera o resultado para contestar o impeachment no Supremo Tribunal Federal (STF), a Corte que estabeleceu as regras do julgamento.

Na proclamação da República, “o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”, como disse Aristides Lobo. O que acontece agora é diferente, o povo sabe que Dilma está sendo afastada do poder. Acontece que um exército de 12 milhões de desempregados desmobiliza os sindicatos petistas. As eleições municipais mobilizam suas bases partidárias, a ponto de o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, por conveniência eleitoral, ser o grande ausente entre os convidados de Dilma nas galerias do Senado. O julgamento continua hoje com as intervenções dos advogados de defesa e da acusação e, depois, a discussão entre os senadores. Seu depoimento não ajudou a reverter votos pró-impeachment. Mais do que isso, reafirmou atitudes e posições políticas que levaram o país ao fundo do poço. A aprovação do impeachment e a cassação de seu mandato são favas contadas.