Nas entrelinhas: A corda bamba

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Por que a situação de Temer não é igual à de Dilma? Porque não perdeu o apoio do stablishment do país, principalmente de sua base parlamentar

O governo do presidente Michel Temer chega ao fim de 2016 na corda bamba. Arca com o desgaste causado pela recessão e pelo desemprego, que é fruto dos desatinos da “nova matriz econômica” dos governos Lula e Dilma, e também pela adoção de medidas impopulares no ajuste fiscal, como a PEC do Teto dos Gastos e a proposta de reforma da Previdência. O maior complicador, porém, é a Operação Lava-Jato: Temer foi quem mais saiu desgastado com as delações premiadas de Marcelo e Emílio Odebrecht e dos executivos da maior empreiteira do país.

A última pesquisa do CNI-Ibope (apurada entre 1º e 4 de dezembro) não capturou todo o desgaste causado pelas citações a Temer nos depoimentos: o número dos que avaliam o governo como ruim ou péssimo subiu de 39%, em junho, para 46% em dezembro. Os que desaprovam a maneira de governar do presidente aumentaram de 55% para 64%. Apenas 13% consideram o governo ótimo ou bom, mesmo percentual registrado em junho. Em setembro, era de 14%. Naquele mês, 12% dos entrevistados não quiseram ou não souberam avaliar o governo. Esse número caiu para 6%. Ou seja, a popularidade do governo deve ser menor ainda.

Por que a situação de Temer não é igual à de Dilma? Porque não perdeu o apoio do stablishment do país, principalmente de sua base parlamentar, ao contrário da petista, cuja derrota começou exatamente porque perdeu a disputa pela presidência da Câmara, ao apoiar a candidatura do petista Arlindo Chinaglia (SP) contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Experiente parlamentar, pois exerceu a presidência da Câmara por três vezes, Temer sabe que não pode entrar em bola dividida pra perder. No momento, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) é um polêmico candidato à reeleição na Câmara e há mais dois nomes pleiteando o seu lugar: os líderes do PTB, Jovair Arantes (GO), e do PSD, Rogério Rosso (DF).

Na tumultuada eleição de Maia, em razão do afastamento de Eduardo Cunha do comando da Casa pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o grande operador do Palácio do Planalto foi o ex-ministro Geddel Vieira Lima, que até hoje não foi substituído na Secretaria de Governo. Seu substituto temporário nas articulações políticas  é o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que acaba de sair chamuscado da delação premiada do ex-diretor da Odebrecht Cláudio Melo Filho. Qualquer que seja sua interferência no processo, será interpretada como orientação de Temer.

Há que se considerar que o novo presidente da Câmara será o sucessor imediato de Temer, caso o presidente da República seja impedido, o que torna mais tensa a disputa. O processo de cassação da chapa Dilma-Temer, impetrado pelo PSDB, ganhou mais densidade com a comprovação de irregularidades pelos investigadores da Polícia Federal, da Receita Federal e do Ministério Público. Caso o processo não seja desmembrado, a cassação da chapa implicaria na convocação de eleições indiretas, na qual o presidente da Câmara é um grande eleitor, se não for ele próprio candidato. Ou seja, Temer enfrenta um grande estresse político na sua retaguarda. Em contrapartida, a sucessão de Renan Calheiros (PMDB-AL) no Senado parece tranquila. O candidato natural do PMDB é o líder da bancada, Eunício de Oliveira (CE), que sempre foi um bom articulador, mas não raro aparece uma candidatura de oposição. Se a bancada do PMDB se dividir, pode haver surpresas na eleição.

Juízes e militares

Apesar da grande mobilidade social, na sociedade brasileira, a magistratura e os militares têm características de castas, embora sejam também vias de ascensão social, principalmente depois da Constituição de 1988. Nem de longe, porém, se parecem as milenares castas indianas: os brahmin, que são os sacerdotes e letrados; os kshatriya, os guerreiros; os vaishas, os comerciantes; e os shudrasdra, camponeses, artesãos e operários. A principal característica da casta é a endogamia, a transmissão hereditária de um estilo de vida, que frequentemente inclui a profissão. É nesse sentido que estamos falando.

O que sustenta a corda bamba de Temer, de um lado, são as Forças Armadas, que se mantiveram até agora rigorosamente de acordo com as suas atribuições profissionais, ao contrário do que aconteceu em todas as outras crises políticas da nossa história republicana anterior à redemocratização. De outro, a atuação moderadora do Supremo Tribunal Federal (STF), que às vezes é errática e intempestiva, devido à forte pressão da jovem magistratura e da sociedade, que apoiam maciçamente a Operação Lava-Jato. São sintomas, porém, de grande mudança de comportamento e de confiança na democracia e não na própria força. Mas é um equilíbrio frágil: se esticarem demais, a corda arrebenta; se afrouxarem, balança ainda mais.