Nas entrelinhas: As garras do falcão

Publicado em América, Eleiçoes, Memória, Partidos, Política, Terrorismo

Não é à toa que Trump anda falando que as eleições serão fraudadas e só reconhecerá o pleito se ganhar a presidência dos Estados Unidos

A disputa entre Donald Trump e Hillary Clinton mostra a esquizofrenia da democracia norte-americana, que surpreendeu o mundo com a eleição de Barack Obama, e sua recondução ao cargo, o que era tão inimaginável quanto a escolha do Papa Francisco. O líder comunista Fidel Castro chegou a dizer, certa vez, que o reatamento das relações de Cuba com os Estados Unidos era tão improvável quanto a vitória de um presidente negro na maior economia do planeta e a eleição de um papa argentino na Igreja Romana. As três coisas aconteceram.

A cinco dias do pleito, o histriônico empresário Donald Trump, candidato do Partido Republicano, com suas declarações xenófobas e reacionárias, está ligeiramente à frente da candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, enrolada por causa da utilização de e-mail pessoal quando era chefe do Departamento de Estado. Isso não significa que vencerá as eleições, porque a escolha do presidente é feita de forma indireta, por delegados eleitos nos estados. Dois deles, que ainda estão indefinidos, decidirão os destinos da América: Ohio e Flórida, com 20 e 29 “superdelegados”, respectivamente.

Nos Estados Unidos, cada estado tem um número de delegados, que é relativo ao número de habitantes. Quanto mais populoso, maior o número de delegados.O colégio eleitoral, que deve ter, no mínimo, três delegados, é escolhido de acordo com as regras estabelecidas pelos estados, com autonomia garantida pela Constituição desde 1787. Os eleitores podem ser filiados ou não aos partidos. No fim da linha, 538 delegados formam o colégio eleitoral. Para ser eleito, o candidato deve ter apoio de 50% mais um dos delegados, ou seja, 270 votos.

Por essa razão, os votos populares nos candidatos elege os delegados, mas não necessariamente o presidente, porque quem ganha num estado leva todos os seus delegados, não existe proporcionalidade. Isso já aconteceu quatro vezes. A última foi em 2000, quando o candidato democrata Al Gore teve mais votos populares que o republicano George W. Bush, um total de 51.003.926 contra 50.460.110. No colégio eleitoral, porém, Bush foi eleito presidente dos Estados Unidos por 271 a 266. Essa situação pode se repetir agora, caso Trump mantenha-se à frente de Hillary nas pesquisas, uma vez que a democrata ainda leva vantagem no número de delegados.

Não é à toa que Trump anda falando que as eleições serão fraudadas, que só reconhecerá o pleito se ganhar a presidência dos Estados Unidos e outras coisas do gênero. Parece mais uma fanfarronice do magnata, mas não é. Existem forças poderosas nos Estados Unidos que desejam sua eleição, principalmente os “falcões” do complexo militar-industrial, interessados na volta do intervencionismo militar da era Bush. Positivamente, Barack Obama não foi um “xerife” da ordem mundial, como gostariam.

É mesmo estranho que uma semana antes do pleito, com Hillary na liderança folgada em relação a Trump, o diretor do FBI, James Comey, um republicano, resolvesse abrir investigações sobre os e-mails da época em que a candidata democrata era secretária de Estado de Obama, sem nenhuma prova concreta de que tenha usado sua conta pessoal para tratar de assuntos confidenciais com uma ex-secretária. A decisão foi uma bomba na campanha da candidata democrata, favorecendo Trump, que acusa Hillary de ser responsável por vários revezes norte-americanos na luta contra o terrorismo. Justo na hora em que o candidato republicano estava nas cordas, quase a nocaute, por causa de várias denúncias de assédio sexual.

Poderoso
O impacto na campanha de Hillary foi tão grande que o presidente Barack Obama foi obrigado a se manifestar sobre o assunto, apesar do cuidado para não interferir no caso. “Existe uma norma segundo a qual, quando existe uma investigação, não se trabalha com base em insinuações, em informações incompletas”. Quando o caso foi investigado pelo FBI, pelo Departamento de Justiça e pelo Congresso, concluiu-se que Hillary havia errado, mas “nada justificava que fosse objeto de processos judiciais”, argumenta Obama. Em julho deste ano, James Comey havia anunciado que o FBI recomendava não indiciar Hillary no caso, o que foi respeitado pelo Departamento de Justiça.

O chefe do FBI, porém, é um falcão republicano com garras e bico afiados. A sua atuação às vésperas da eleição lembra um personagem sinistro da política norte-americana, J. Edgar Hoover (1895-1972), que conviveu com seis presidentes ao longo de 48 anos como diretor-geral do poderoso Federal Bureau of Investigation, criado e dirigido por ele a pedido do presidente Franklin Delano Roosevelt, em 1935. Dono de um arsenal de segredos pessoais e de Estado, Hoover tornou-se popular ao pôr os gangsteres na cadeia durante a Lei Seca, mas se tornou um grande vilão pelos ataques a operários e defensores dos direitos civis, além de intelectuais e artistas, principalmente no período do chamado macartismo. Tutelou muitos presidentes e políticos norte-americanos e somente deixou o cargo ao morrer. Foi interpretado por Leonardo DiCaprio no filme J. Edgar, dirigido por Clint Eastwood, uma boa dica para quem gosta de clássicos do cinema disponíveis na tevê.