Mundana companhia mostra diálogos contemporâneos em Na selva das cidades – Em obras

Publicado em Artes Cênicas, Teatro

“Lidar com nossa própria incompletude é o que nos move”, lembra a atriz Luah Guimarãez, uma das proponentes da temporada brasiliense do espetáculo Na selva das cidades – Em obras. Integrante da mundana companhia ela continua na capital após uma energética temporada com Dostoiévski-Trip.

O espetáculo atual é inspirado no texto clássico de Bertolt Brecht e foi construído após extensa pesquisa pela cidade de São Paulo. Por dois anos, o grupo mergulhou dos pontos mais altos aos subterrâneos da selva urbana, construindo um profundo emaranhado de experiências.

Para se manter vivo e em constante transformação criativa, o grupo optou por propor novas provocações a cada cidade visitada. Em Brasília, a ênfase da montagem ficará no dinheiro, que se caracteriza como elemento de desestabilizar as relações nas sociedades contemporâneas.

 Foto Elenize Dezgeninki
Foto Elenize Dezgeninki

A direção é de Cibele Forjaz, que ajuda a conduzir o processo embaralhado de fronteiras criativas entre a equipe. Os fundadores da companhia, Aury Porto e Luah Guimarãez, foram os provocadores da temporada brasiliense.

As narrativas do espetáculo

Luah destaca que o texto narra a luta entre dois homens: Shlink (um estrangeiro, se que torna milionário) e George Garga (um homem que veio do sertão). Uma luta, que de início, se propõe como uma luta de classe: Entre um grande capitalista, negociante de madeira e um empregado de um sebo de livros. O poder do dinheiro se escancara logo no primeiro quadro da peça e as relações com as questões atuais de nosso país entram em evidência.

“Logo em seguida percebemos que não é tão simples a equação proposta por Brecht. Na verdade o negociante de madeiras, Shlink, quer comprar a opinião de George Garga. E a pergunta ecoa em todos nós: Quanto custa a sua opinião”, destaca a atriz.

A atriz explica que a luta entre esses dois homens vai acontecendo por rounds e acaba por envolver todos os familiares de Garga e todo o bando de Shlink.

mundana companhia - na selva das cidades

Além disso, essa luta se torna metafísica, a ponto de nos perguntarmos se cada um desses jogadores/ lutadores gostaria mesmo de se transformar no outro, no que é diferente de si mesmo, mas que o complementa tamanha é a diferença. Como se um não pudesse existir sem o outro. Portanto, o tema central pode ser a incomunicabilidade entre dois seres humanos.

“Um dos textos que mais gosto desta peça diz o seguinte: ‘Se vocês entupirem um navio com corpos humanos, até explodir, vai haver tanta solidão dentro dele que todos irão congelar’. Eu gosto deste texto porque eu preciso me lembrar dele todos os dias, para lutar contra o que ele significa. Eu preciso acreditar todos os dias e trabalhar para a transformação deste país e deste mundo. Mesmo que com pequenos gestos”, destaca Luah.

Experiências da mundana companhia na cidade

A mundana companhia existe há 10 anos. É uma companhia gestada do ponto de vista autoral. Em quase todos os projetos separamos o processo criativo em duas partes: a pesquisa sobre o texto e o processo de construção do espetáculo propriamente dito.

A ideia da intensa pesquisa, que tem a cidade de São Paulo como protagonista, teve como objetivo sair do conforto das salas de ensaio e abrir o processo criativo na sua relação com a cidade. A experiência foi publicada no livro Imersão selva, escrito pela mundana companhia.

mundana companhia - na selva das cidades

“Durante aqueles 10 meses, a equipe de 34 artistas e técnicos da companhia fez 14 imersões em diversas regiões da cidade. Do centro às periferias, entre construções e demolições, dos lugares mais ricos aos mais pobres”, lembra Luah Guimarãez.
A atriz e provocadora conta que, nas imersões, a partir de cada um dos 11 quadros do texto Na Selva das Cidades, de Bertolt Brecht, o grupo realizou: Pesquisas de campo; estadia de toda a equipe, entre 24 e 36 horas, com vivências nas comunidades; laboratórios; workshops; análises do texto; experimentos cênicos e leituras encenadas do texto abertas ao público. Foram 14 travessias cobertas por experiências transformadoras.

Para avançar nas investigações da montagem, o grupo decidiu eliminar a palavra ensaio e trocá-la para treino. A ideia era focar no treino dos corpos no tempo. Enquanto isso, o elenco se propunha a manter o espetáculo em constante transformação, em obras.

Foi a maneira que a mundana companhia encontrou de transformar a relação com o texto de Brecht e as contradições que a cidade proporciona em uma experiência do vivo e, portanto, muitas vezes dolorosa e transformadora.


Confira entrevista com Luah Guimarãez

mundana companhia - na selva das cidades

O processo de pesquisa da mundana companhia para a criação do espetáculo durou dois anos, o que vocês encontraram e desenvolveram nesse tempo?
A grande protagonista da pesquisa foi a cidade de São Paulo atual. A cada imersão nos aprofundávamos em um quadro do texto do dramaturgo alemão. Os territórios da cidade foram escolhidos por conta de cada tema que o quadro explora.

Por exemplo para viver o quadro 3, que se passa na casa da família de George Garga, uma família pobre, que veio do sertão para a selva da cidade grande, a mundana companhia escolheu viver esta experiência de imersão na favela do Escorpião na zona leste. Para entrar na favela nós fizemos uma reunião com o zelador. O zelador era um cara ligado ao PCC que cuida da comunidade, que zela de verdade pelo bem-estar. E faz projetos de reciclagem. E fomos maravilhosamente bem recebidos.

Foi mais fácil lidar com esses territórios selvagens de teatro, do que por exemplo, quando precisamos usar algum parque público, onde a quantidade de ofício e burocracia necessários para nos deixar usar um pedacinho de terra foi absurda.

O público e o privado hoje em dia estão invertendo as posições. Desta escolha, irmos para uma favela brasileira, você pode imaginar como os temas do texto do Brecht , escrito em 1923, que falava da Chicago de 1912 pôde se tornar visionário da São Paulo de 2018. O texto de Brecht funcionou para a São Paulo de uma maneira muito trágica, pensando por exemplo do ponto de vista do tempo histórico.

Como foi o processo criativo para a montagem do espetáculo da mundana companhia o e como é montar um texto clássico trazendo novos olhares contemporâneos?

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Logo após o período de pesquisa, em agosto de 2015 havia chegado o momento da sala de ensaio – a construção do espetáculo propriamente dito. Todos os integrantes estavam à flor da pele para criar, mas ninguém parecia querer fixar e muito menos fechar nada pois a experiência com a presença da cidade havia sido muito mais potente do qualquer síntese artística.

Surgiram as perguntas: Como permanecer em estado de investigação? Como não parar um processo criativo? Porque a experiência com o texto do Brecht pela cidade ganhava a sensação de completude?

Nasceram novos acordos e, entre eles, que os artistas se mantivessem “em obras”. Este conceito – Em obras – sintetizava um desejo: não fechar a obra, mas sim mantê-la em estado de investigação.

Por que motivo escolheram o dinheiro como tema principal para a temporada em Brasília?

foto: Renato Mangolin
foto: Renato Mangolin

Porque acreditamos, infelizmente, que o dinheiro ainda move todo tipo de relação de poder. No teatro muitas vezes precisamos escavar o texto e o autor, encontrar o que está por baixo das palavras. Muitas vezes significa encontrar o que poderia ser dito de outra maneira. E além disso, muitas vezes, o ator, ao escavar o texto do autor, acaba encontrando o próprio significado de trabalhar hoje em dia com aquele texto, refletindo sobre o tempo em que ele vive. Trazer para Brasília um texto como Na selva das cidades – Em obras é um luxo.

Mas ao chegarmos aqui há 4 semanas atrás, chegamos aqui dia 14 de março para fazer outro espetáculo no CCBB Dostoiévski- trip, estávamos ensaiando quando veio a notícia da execução de Marielle Franco. Diante do cenário que vemos todos os dias com notícias tão ultrajantes para a nossa democracia, ficamos nos perguntando Aury e eu, que somos os proponentes desta vez, como resumir e dialogar com todas as questões políticas, como sintetizar. E aí nos ocorreu que infelizmente o melhor nome encontrado seria Operação dinheiro.

Eu digo infelizmente porque novamente precisamos lutar pelo contrário. Brecht sempre se dá na negativa. Você afirma para o ator poder dizer o contrário.

Mas o dinheiro move o poder, move golpe, move a governabilidade. O dinheiro opera todas as instâncias, é de novo, infelizmente, o rio que corre por debaixo da nossa democracia.


Fotos: Renato Mangolin e Elenize Dezgeninki

Serviço
Espetáculo Na selva das cidades – Em obras, de Bertolt Brecht, com a Mudana companhia, no Teatro da Caixa Cultural Brasília (SBS Q. 4), de 12 a 15 de março; de quinta a sábado, às 20h e domingo, às 19h. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia-entrada) e a classificação indicativa é de 14 anos.