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Insetos estreia nessa semana na capital – Confira entrevista com o diretor, Rodrigo Portella

Publicado em Artes Cênicas, Teatro

Com texto escrito por Jô Bilac e direção de Rodrigo Portella a Cia. dos Atores, do Rio de Janeiro, entra em cena para tratar de temas contemporâneos. Em Insetos o elenco transita entre doze quadros que falam de medo, manipulação e transitoriedade. A companhia, que completa 30 anos de trajetória teatral, cria diálogos importantes com o público através de uma narrativa divertida e construída pela possibilidade de trabalhar temas profundos através do texto cômico.

Para o diretor, Rodrigo Portella, o público se identifica, principalmente, pela potência das analogias de cada inseto que faz parte da montagem. “Cada um representa uma camada social bem específica. Existe um casal de gafanhotos, por exemplo, que mostra uma camada individualista e destruidora, que desmata e faz uso nocivo dos bens naturais”, destaca. Há ainda as formigas, que trabalham para juntar e evitar que algum recurso falte em tempos de adversidade.

Como uma fábula, o texto é capaz de traçar paralelos entre a natureza e questões políticas e sociais da atualidade – evocando comportamentos coletivos e individuais que vão sendo revelados na voz de diferentes insetos. O diretor conta que a peça permanece viva e se reinventa a cada apresentação.

espetáculo Insetos

Ela lembra que questões como controle das massas e capacidade de resistência são trabalhados na obra, que toca no ponto de como cada um pode deixar de ser um enxame para existir como um indivíduo dentro de determinado contexto.

Confira entrevista com o diretor de Insetos, Rodrigo Portella

Como foi a adaptação do texto de Jô Bilac para o espetáculo da Cia. dos Atores?

Essa adaptação foi feita em processo, junto com a companhia, em função da forma que a gente adotou para a escritura do texto. O Jô ia escrevendo e enviando as cenas pra gente. Adotamos uma forma de trabalho em que ele não participou dos ensaios, o texto foi escrito paralelamente aos ensaios.

A gente mexia no texto a partir dos jogos e proposições que eram feitas no processo. Discutíamos, experimentávamos e fomos construindo ela através do jogo, o espetáculo tem um caráter performativo muito grande e é atravessado pelo meu caráter e pelo caráter dos atores. O Jô deixou bem claro que o texto era bem aberto para essas adaptações.

De que maneira os temas principais de Insetos, o medo e a manipulação, são trabalhados em cena?

Insetos

Eu trabalhei com a ideia de que o assunto principal, o eixo da coisa, está nesses movimentos de migração, nesses trânsitos, as transitoriedades. Pra mim a peça fala desse trânsito, de ir ou não ir, ficar ou não ficar, migrar. Acho que ela levanta essa temática, o estagnar ou se movimentar.

As relações contemporâneas em Insetos

Como esses personagens foram trabalhados para que o público identificasse suas relações com os temas contemporâneos?

Eu acho que o público se identifica pelas analogias mesmo, elas estão bem claras. Quando você tem ali um casal de gafanhotos, que é uma representação de uma camada social bem individualista destruidora, que pensa sempre no seu conforto, seu lazer, acaba representando uma camada da população que despreza, que desmata, que faz um uso nocivo dos bens naturais.

Esse é um outro braço que a peça levanta, a relação do homem com o planeta, o ecossistema, a capacidade de gerir os bens que essa natureza nos dá. E essa é uma das analogias, o gafanhoto que destrói tudo, é uma praga. Esses insetos são utilizados como uma analogia na dramaturgia, que causa uma identificação imediata. Essas analogias fazem o espectador viajar, se identificar.

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A peça começa a partir de uma questão muito simples, as abelhas estão indo embora, há uma diminuição absurda de abelhas no planeta. Elas estão migrando para algum lugar, alguma coisa está acontecendo e esse êxodo das abelhas é muito perigoso porque a existência dela é determinante para todas as outras espécies.

Como as personagens de nossa história ganham vida na pele dos insetos?
Na condução do trabalho dos atores, uma coisa muito importante foi lançarmos mão do inseto como representação de algo, analogia de um grupo social, arquétipo. Eles não incorporam o personagem da forma mais tradicional, não fazem um bichinho.

A estrutura espacial tem uma característica bem marcante, toda a cenografia é feita com pneus de carro, moto, trator, caminhão. Esses pneus trazem um aspecto modular para a cenografia, vão montando vários cenários como se fossem um lego grande e eles são móveis, não ficam fixos.

E esses pneus têm uma presentação muito forte da indústria, dos prejuízos aos bens naturais, exploração do petróleo, que tem a ver com transporte, que tem a ver com a ideia de capital, lucro, mobilidade, tudo ligado a essa ideia do pneu.

Você acha que o teatro ainda é um espaço eficiente para criar diálogos com o público atual?

O espetáculo é muito engraçado, essa é a forma como ele dialoga com a plateia, que se diverte muito. A gente está falando muito sério, mas de uma forma cômica. E acho que esse recurso, de alguma maneira, abre o espectador para ele se envolver com o tema. Eu acho que o teatro é uma excelente ferramenta para falar de temas como esses em um ano de eleição.

Eu tenho a impressão de que os debates polarizados, cada vez mais hostis, o teatro passa por esses temas, provoca essas questões, sem cair nesse lugar do debate e discussão polarizada, e às vezes até estéreo. A peça é uma obra artística e as pessoas leem de maneira diferente, interpretam como elas querem. A gente desenvolveu uma dramaturgia da cena que não é impositiva, tem uma forma um pouco mais aberta, para que as pessoas possam refletir, pensar, conectar coisas e referências.


Serviço

Insetos
Centro Cultural Banco do Brasil (SCES Tr. 2). De 17 de maio a 10 de junho, quinta a domingo, às 20h e sessões duplas aos sábados, às 18h e 20h. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 20 (meia). Não recomendado para menores de 14 anos.