Foto: Ismael Monticelli
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Gisele Fróes mostra talento impecável para contar histórias em O Imortal

Publicado em Artes Cênicas, Crítica, Teatro

Gisele Fróes recebe com delicadeza na voz e sorriso no rosto cada espectador que entra no aconchegante espaço criado na galeria quatro do CCBB. Uma cadeira ocupa o centro do palco rodeado pelo cenário preenchido por livros que nos convidam a entrar com curiosidade na cena. A atriz deixa transparecer sua ampla trajetória cênica através dos gestos precisos e do olhar cuidadoso ao se relacionar com o espectador. O espetáculo foi baseado em conto homônimo do escritor Jorge Luís Borges, O Imortal, com direção de Adriano Guimarães.

A narrativa ganha vida de maneira simples, através do corpo, da voz e dos gestos de Gisele e convida o público a um mergulho entre as palavras. O ambiente é de imersão e a atriz consegue captar a atenção de cada um que lhe acompanha naquele instante de contar histórias. A obra transita por inúmeras possibilidades e provoca de maneira diferente cada um que se relaciona com a própria mortalidade, tema recorrente entre os trabalhos de Borges.

A força de Gisele Fróes

Foto: Ismael Monticelli
Foto: Ismael Monticelli

A relação íntima de Adriano Guimarães com a literatura fica visível na direção que transita, ao mesmo tempo, pela delicadeza e pela intensa formação de imagens no imaginário do espectador. Gisele Froes nos leva a caminhar ao longo de cada pedaço do deserto e mergulhar canto do mundo visitado no tempo seguinte. No palco, acompanhamos a voz de uma mulher que nos conta a descoberta transformadora da história que encontrou em um antigo pergaminho. A atmosfera é toda envolta pela poética das palavras.

A emoção vem fácil quando a atriz nos conta com serenidade cada objeto reconhecido e renovado ao longo dos séculos, cada estrada percorrida, cada espaço que se apresentou na incansável busca de um homem que tem, em suas mãos, todo o tempo do mundo. Para seguir em frente, o desejo da descoberta e o impulso vital provocado pela vontade da busca, são essenciais. Aos imortais que carregam a certeza de todas as experiências, resta a inércia do pensamento puro. A história me desperta a vontade de percorrer novos caminhos.

gisele fróes, imortal

Em O Imortal, o espectador tem a experiência de misturar a experiência do palco aos encantos do livro e cada um se vê diante da possibilidade de criar suas próprias imagens. O cenário é outro elemento eficaz em despertar e provocar a imaginação de quem acompanha a peça. Enquanto isso, a imortalidade entra em cena através da criação e da riqueza das memórias. Estaremos vivos sempre que alguém puder nos recordar.

Adriano Guimarães destaca que o ser humano é o único animal que tem consciência da própria morte, isso é um pouco estranho de pensar. A gente sabe que daqui a 100 anos ninguém que conhecemos estará vivo. Esse tema pauta muito do nosso comportamento e do nosso pensamento. Nós fazemos escolhas cotidianas relacionadas à morte, nos alimentamos melhor. Queremos durar.

Sobre a peça

gisele fróes, imortal

Uma mulher recebe de um antiquário os seis volumes da tradução inglesa da Ilíada, de Homero. Dentro do sexto volume, ela descobre um manuscrito escondido. É o relato autobiográfico de Marco Flamínio Rufo, tribuno militar do Império Romano, que, no século III d.C., partiu em busca da Cidade dos Imortais e do rio que purificaria da morte todo aquele que bebesse de suas águas.

No decorrer da narrativa, acompanhamos os acontecimentos da desafiadora trajetória do tribuno: desde o seu encontro com um estrangeiro que lhe revela a existência do rio e da cidade, até as inúmeras tentativas de encontrá-los nas paisagens desérticas mais terríveis.

O escritor argentino Jorge Luis Borges
O escritor argentino Jorge Luis Borges

Borges publicou o “O Imortal” em 1949 dentro da coletânea de contos “O Aleph”. O espetáculo que estreia em Brasília em março investiga os múltiplos sentidos da (i)mortalidade na obra do escritor argentino.

No processo de pesquisa para a montagem teatral, que começou em meados de 2015, Adriano Guimarães, Gisele Fróes e Patrick Pessoa, se debruçaram sobre o que se poderia chamar de uma “filosofia da imortalidade” de Borges. Além de estudarem outros contos do autor, se aproximaram de muitos de seus ensaios, em especial o intitulado A imortalidade, escrito quase trinta anos depois de “O Imortal”.

A direção fica por conta dos Irmãos Guimarães
A direção fica por conta dos Irmãos Guimarães

Com direção dos Irmãos Guimarães e dramaturgia de Adriano Guimarães e Patrick Pessoa, “O Imortal” é o primeiro monólogo realizado por Gisele Fróes, que se apaixonou pelo conto e sentiu-se motivada a levar a história aos palcos.

Como os antigos rapsodos gregos, que diziam de cor os poemas de Homero, fazendo todos os personagens e chamando a atenção dos ouvintes para suas muitas camadas de significação, a atriz, através do personagem da mulher que recebe o manuscrito, compartilha com o público o relato fantástico.


Serviço

O Imortal, de 2 a 25 de março, na galeria 4 do CCBB; de quinta a domingo, às 20h. Sessão extra | 25 de março, domingo, às 17h. A classificação indicativa é de 12 anos e os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).