Foto Lucas Casado
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Espetáculo musical Maré Cheia mostra a força da criação autoral na cidade

Publicado em Artes Cênicas, Teatro, Teatro musical

Inspirada pelos mitos, vontades e saudades que ocupam o imaginário do brasiliense em relação ao mar, Gabriela Abreu criou Maré Cheia, espetáculo de teatro musical que busca mostrar a força autoral da produção brasiliense. O elenco talentoso sobre ao palco para contar a história de Maria, uma mulher forte em busca de sua própria identidade. A autora também entra em cena para interpretar uma personagem da obra.

A história de Maré Cheia é contada sob um ponto de vista feminino e mostra mulheres com tramas complexas, com protagonismo constante em sua própria existência. A trilha sonora também é autoral, com canções escritas especialmente para montagem, que busca construir uma relação natural e espontânea com a expressividade através do texto e da música em cada personagem.

Maré Cheia (Foto: Lucas Casado)
Maré Cheia (Foto: Lucas Casado)

A ideia para escrever Maré Cheia surgiu a partir da vontade de colaborar para a criação de personagens femininas mais reais. Gabriela lembra que A Universidade de Brasília (UnB) publicou uma pesquisa há alguns anos sobre o perfil do escritor brasileiro: mais de 70% dos livros foram escritos por homens, 90% são brancos e, pelo menos, a metade veio do Rio de Janeiro e de São Paulo. A pesquisa ainda revelou que esse perfil se mantém no Brasil nos últimos 49 anos.

“Se somarmos esse levantamento ao famoso teste de Bechdel, veremos que a representatividade feminina na literatura e na dramaturgia brasileiras é sofrível. Maré veio da vontade de escrever uma peça sob um ponto de vista feminino, em que as personagens têm tramas complexas, que não necessariamente giram em torno de um envolvimento amoroso”, destaca Gabriela.

A autora colaborou com parte da criação das canções de Maré Cheia, sendo que a harmonia e boa parte das letras foram feitas pelo diretor musical, Rodrigo Karashima. A maior preocupação era inserir as músicas organicamente na peça, de maneira que a canção fosse algo natural, como se fosse uma continuação do texto.

maré cheia

“Em muitos espetáculos de teatro musical é fácil identificar os momentos de cantar: o ator ou atriz interrompem a cena e cantam. Em Maré, procuramos integrar com o máximo de naturalidade possível a música e o texto, de maneira que um fosse a continuação natural do outro”, lembra Gabriela.

A autora lembra que a produção de musicais autorais na cidade ainda é incipiente e Maré cheia vem justamente como uma tentativa de preencher essa lacuna. A montagem foi escrita em verso e tem o rock como pando de fundo da narrativa. Durante os ensaios, as cenas foram construídas com o cuidado de aproximar esse texto em verso da realidade, fazendo ele fluir da maneira mais natural possível.

A encenação e o trabalho criativo ficaram a cargo do diretor musical, Rodrigo Karashima e principalmente da diretora cênica, Camila Meskell, que trouxe elementos do teatro contemporâneo para o universo do musical. Dança, música, teatro e poesia se unem na medida certa para criar uma atmosfera lírica no palco.


 

Três perguntas para Gabriela Abreu

Gabriela interpreta Capitu, a dona do armazém
Gabriela interpreta Capitu, a dona do armazém

Quais são os principais temas trabalhados no musical?

O musical fala, sobretudo, sobre a busca pela própria identidade. A protagonista, Maria, se sente meio perdida no mundo, desconhece a própria força. Outros temas que levantamos foi o medo frente ao desconhecido, como reagimos de maneira muito diferentes ao nos defrontarmos com fatos aparentemente sem explicação.
Você escolheu contar a história de uma mulher sem utilizar como foco um relacionamento amoroso, como foi feita essa escolha?

Se você for aplicar o Teste de Bechdel às peças de teatro – brasileiras ou não – é triste ver que quase nenhuma se salva. As mulheres são muitas vezes retratadas unicamente como o interesse amoroso do mocinho – isso quando são retratadas.

Me soa muito arcaico que tenhamos na nossa cultura tão poucas representações das mulheres tais quais elas são: seres plurais e maravilhosos, que têm anseios, dilemas e vivências muito além de unicamente um romance.

Brasília é um bom lugar para desenvolver musicais autorais de qualidade profissional? 

Brasília possui um material humano riquíssimo, uma mão de obra extremamente qualificada para a produção de ótimas peças de teatro musical. A insuficiência de incentivo privado ao teatro, que ainda é muito tímido aqui, somada à escassez de teatros na cidade acaba criando um movimento migratório dos artistas locais para o eixo Rio-São Paulo. Os que ficam aqui acabam levantando peças incríveis com extremo esforço, penúria mesmo. Mas resistimos!


O que é o Teste de Bechdel?

O teste de Bechdel pergunta/questiona se uma obra de ficção possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. Algumas vezes se adiciona a condição de que as duas mulheres tenham nomes. Muitas obras contemporâneas falham no teste, que é um indicativo de preconceito de gênero.


A história de Maré cheia

maré cheia

Preconceito, medo do desconhecido, intolerância para com o próximo. Ainda, a missão de se encontrar e honrar quem se é. Todos estes temas permeiam o musical que se enquadra em um drama com pitadas de humor. Maré Cheia se passa em uma vila de pescadores em algum ponto afastado do litoral brasileiro. A peça não especifica apenas uma região, representando um pouco dos vários Brasis.

Dentro desta vila mora a jovem Maria (Simone Mariano). Sua história é conduzida e recheada por versos e mitos. Mulher de passado misterioso, a protagonista possui uma forte ligação com o mar e vive as consequências desta relação que permeia o sobrenatural.

Tudo começa quando seu companheiro, o pescador Tião (Áquila Silver), desaparece em meio a uma tempestade. Logo após, ela descobre em si um poder desconhecido que afetará sua vida e a vida da comunidade em que vive.


 

Serviço:

Maré Cheia, dias 14 e 15 de abril; sábado, às 20h, e domingo, às 19h, na Sala Plínio Marcos do Complexo Cultural Funarte (Eixo Monumental). Ingressos: R$ 10 (meia-entrada). Doadores de 1 Kg de alimento pagam meia.

Dia 29 de abril; domingo, às 15 e às 19h, no Espaço Semente (6 SCE Centro Hoteleiro, 1 – Gama). Dias 5 e 6 de maio; Sábado, às 20h, e domingo, às 19h, no Sesc Taguatinga (CNB 12 – Área Especial 2/3 – Taguatinga Norte). Dias 19 e 20 de maio – Sábado, às 20h, e domingo, às 19h, no Sesc Ceilândia (QNN 27 – Área Especial S/N – Ceilândia Norte). Entrada franca.


Ficha Técnica:
Direção Geral: Gabriela Abreu
Direção Musical: Rodrigo Karashima
Direção Cênica: Camila Meskell
Assistente de direção cênica: Renata Bittencourt
Preparador vocal: César Miranda
Coreógrafa: Aleska Ferro
Produção Executiva: Mateus de Medeiros
Coordenação de Produção: Raquel Fernandes
Assistente de Produção: Paula Hesketh
Elenco: Aleska Ferro, Áquila Silver, Gabriela Abreu, Loretta Martins, Ricardo Taveira, Rodrigo Issa, Rômulo Mendes, Simone Mariano, Thammi Oliver
Cenografia e figurinos: Anna Noceti
Iluminação: Ana Quintas
Realização: DeAraque Iniciativas Teatrais
Trilha sonora: Rodrigo Karashima
Assessoria de imprensa: Baú Comunicação Integrada