Carmem Moretzsohn
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Carmem Moretzsohn, o teatro além dos palcos: Entrevista com grandes atrizes

Publicado em Artes Cênicas, Teatro

Carmem Moretzsohn tem uma trajetória consolidada nos palcos da cidade. Ao lado de diretores renomados ela concilia a carreira de atriz com o trabalho em comunicação cultural em Brasília, inspirando o trabalho daqueles, como eu, apaixonados pelo palco e pelas letras. Atualmente ela está em cena em Atra Bilis, sob direção de Hugo Rodas, acompanhada de nomes tradicionais do teatro brasiliense. Encantou-se com o trabalho nos palcos aos 18 anos e, desde então, não largou mais.

Em 2012, Carmem Moretzsohn recebeu o prêmio SESC de melhor atriz pelo desempenho em Cabaré das Donzelas Inocentes, de Sérgio Maggio. Em 2014, foi homenageada pelo Prêmio SESC, por sua contribuição ao teatro de Brasília.

O divertido espetáculo, por seu elenco, chega como uma leve celebração do trabalho árduo de atores que persistem ao tempo. A experiência estampa a precisão de cada gesto. Na história, Carmem Moretzsohn interpreta a imponente Nazária, viúva do único homem que passou por aquela casa-grande e que, no momento, figura esticado entre um caixão ao centro do palco. A tradução do texto original da espanhola Laila Ripoll foi feita por ela em parceria com Hugo.

carmem moretzon

O texto faz parte do projeto Coleção de Dramaturgia Espanhola, criado pelos festivais Cena Contemporânea (Brasília) e Tempo_Festival (Rio de Janeiro), entre outros, em parceria com a Acción Cultural Espanhola e a editora Cobogó.

Eles escolheram 10 encenadores brasileiros para traduzirem 10 textos de teatro espanhol contemporâneo. A experiência de Carmem Moretzsohn com as palavras foi fundamental para colaborar com a tradução de cada sentido do texto.

O trabalho eficiente e delicado pela busca de significados e pela compreensão de cada etapa da história escrita pode ser visto no palco. A cada risada e a cada dito popular que se encaixa entre brigas e rumores criados pelas três irmãs, é possível lembrar que o trabalho de Carmem Moretzsohn se estende para além das cenas. Sua relação com o teatro é ampla e alcança diferentes etapas da criação. Gosto de observar a força com que mostra sua personagem e como sustenta o texto amplo e quase rebuscado de Nazária.


Confira entrevista com Carmem Moretzsohn

Dinossauros, de Santiago Serrano (2012)
Dinossauros, de Santiago Serrano (2012)

Como é participar de um processo inédito do Hugo Rodas?

Eu trabalho com o Hugo há muitos anos. O primeiro espetáculo que fizemos juntos foi O Jardim das Cerejeiras, em 1990. Eu estava ainda começando e já tive o prazer de atuar sob a batuta desse mestre. Fiz vários trabalhos com ele e, depois, integrei a Companhia dos Sonhos, grupo que ele criou entre 1999 e 2004.

Fizemos juntos vários espetáculos com a companhia, inclusive um, Rosanegra – uma saga sertaneja, que eu assinei como autora. Atra Bilis está sendo um projeto incrível, muito inventivo! Hugo decidiu misturar linguagens, brincar com a noção de teatro fantástico, usar a linguagem do realismo mágico. Muito legal!

Qual é o seu personagem e como foi o processo criativo para ele?

Eu interpreto a Nazária, viúva do único homem da Casa Grande. Ela é uma mulher síntese do título do espetáculo: atrabiliária, ou seja, amarga, furiosa, cruel e, ao mesmo tempo, um tanto melancólica. Eu falo tudo isso, mas é importante dizer que estamos lidando com uma comédia, né? Então, ela é tudo isso, mas também engraçada em sua arrogância.

Pra mim, é uma personagem desafiadora em tudo. Muito diferente de mim, como se fosse a minha sombra. Então, é uma coisa que eu talvez não quisesse ver em mim mesma, uma tirana que eu tenho dentro de mim. (Carmem Moretzsohn)

O trabalho nos palcos

carmem moretzon

O elenco feminino e masculino trabalharam juntos na criação de cada personagem ou cada um criou a sua própria versão?

O processo foi bem misturado. Compusemos personagens comuns, mas com muita liberdade para criar cada um à sua maneira. Acho que o fato de os elencos protagonizarem etapas diferentes de uma encenação possibilita isso e torna o entendimento mais fácil. Explico: o elenco masculino apresenta a encenação propriamente dita, com os personagens caracterizados, com gestual, voz, figurinos etc, em tom de farsa.

Já nós mulheres apresentamos o que seria o início de um processo de montagem: o tempo da leitura de textos, da descoberta de tons, de pouco movimento. Algo como se a peça fosse escutada num rádio, por exemplo.

E como é o seu trabalho, enquanto artista, para se relacionar com um texto escrito com humor?

Eu adoro comédia! Já atuei em espetáculos de vários gêneros, claro, mas realmente eu me sinto muito bem fazendo humor. É difícil, tem um timing que a gente não pode perder, exige muita entrega, mas também dá uma liberdade de criação muito grande.

dinossauros1Como foi o processo de tradução do texto? Podemos dizer que é um texto com temática universal?

Este texto tem uma singularidade de conter muitos ditados populares. E isso dificultou bastante nosso trabalho, pois tínhamos que, primeiro, buscar o sentido de cada dito na Espanha rural e depois encontrar um ditado popular brasileiro que o correspondesse, né? Foi um desafio. Queimamos as pestanas. Mas deu certo. O texto fala de lugarejos habitados por nossos avós, aquelas pequenas cidades que ficam abandonadas, perdidas no tempo.

É uma temática universal, uma vez que leva para a cena a solidão e os delírios de quatro velhinhas. Acho que todo mundo vai acabar se reconhecendo ou identificando parentes em uma delas.

Sobre o que fala esse texto, quais são os grandes temas abordados em cena?

O texto coloca em cena um velório e quatro anciãs. São três irmãs e uma criada que velam o corpo do único homem que vivia na casa. Ao longo desta noite, elas trocam farpas, revelam segredos, confessam amores, rancores, se batem, se acariciam, enfim, é “A” noite!

É um texto que fala de solidão, de envelhecimento, mas também de amor, de paixão. Tudo isso embalado em muito humor. A autora Laila Ripoll já disse que o texto ressuscita o teatro de horror, o fantástico, só que em tom de comédia. O Hugo Rodas deu à encenação um tom de realismo fantástico.

Qual a importância atual dos temas abordados pelo texto? Como eles se relacionam com o público?

Eu acho que a gente nunca pensa na velhice. E é compreensível: gastamos nosso tempo vivendo, que é o melhor que fazemos, né? Mas todos nós vamos envelhecer (ou morrer precocemente, o que é pior). E vamos guardar dentro de nós milhares de histórias que vivenciamos, conversas, amores, fracassos e sucessos. Acho que a peça pode tocar o público por ser esse espelho, distorcido, curioso, divertido, de nós mesmos.


 

Entrevista com Adriana Lodi – Grandes atrizes de Brasília