Capa da HQ Desengano, de Camilo Solano
Desengano (Camilo-Solano) Reprodução Capa da HQ Desengano, de Camilo Solano

Dica: HQ Desengano, de Camilo Solano, com prefácio de Crumb

Publicado em Dicas, Quadrinhos

HQ Desengano do quadrinista Camilo Solano apresenta uma história cotidiana de amor. O livro recebeu elogios de uma sumidade dos quadrinhos: o americano Robert Crumb.

Ouvi falar de Camilo Solano pela primeira vez quando fui escrever uma reportagem sobre Robert Crumb. Vi que o icônico quadrinista americano tinha assinado o prefácio de uma HQ do brasileiro. Fui atrás de saber mais e descobri que eles tinham se tornado amigos depois da Flip de 2010, quando Solano foi, na cara de pau, tentar falar com Crumb.

Consegui falar com Solano e ele, generosamente, me contou essa história e revelou curiosidades muito interessantes, como o fato de Crumb gostar de música brasileira e de Noel Rosa. Claro que, depois disso, quis conhecer o que ele produzia e li tudo o que eu achei. Além de passar um tempão no blog dele.

Uma dessas leituras foi a HQ Desengano, de 2015. Exatamente pra ela, Crumb escreveu o prefácio bem elogioso incentivando o quadrinista brasileiro a seguir em frente no ofício. Do que li de Solano, Desengano foi o que mais gostei (mas Inspiração, quadrinho de estreia dele, também é excelente!). Ah, ambas estão disponíveis na Social Comics (escrevi sobre o serviço de streaming neste post anterior).

Os personagens Juca e Rita em Desengano
Trecho de Desengano. Créditos: Reprodução/Camilo Solano

O olhar de Camilo Solano

A história é prosaica, como se não houvesse nada demais ali. Um jovem, Juca, que detesta carnaval vai passar um tempo na casa dos avós no interior. Bem desiludido, ele apresenta tudo o que vê por ali com um olhar desencantado e um tanto poético. Até que um dia, a contragosto, ele vai ao desfile de carnaval e se apaixona por uma mulher, Rita, até então desconhecida.

Poderia ser, sei lá, sinopse de um filme clichê, mas não é. Porque Solano sabe como apresentar a história e entende que o modo de ver o mundo vale mais do que uma narrativa mirabolante. E alcança momentos muito bonitos e poéticos. Como quando Juca fala de almanaques e dos sentidos das palavras. “Que almanaque sem alma esfriou esse mundo?”, pergunta.

Desengano, de Camilo Solano
Na HQ, Solano alcança momentos poéticos. Crédtios: Reprodução/Camilo Solano

Mesmo essa espécie de redenção pelo amor funciona muito bem. A paixão instantânea e um tanto besta de Juca por Rita é entrecortada por momentos bem humoradas e pelo jeito pé-no-chão da personagem feminina.

Solano consegue, em uma narrativa até curta, fazer um mergulho dentro de Juca, suas desilusões, dúvidas e seu jeito torto e melancólico de enxergar o mundo. É isso que faz de Desengano uma HQ tão boa.

Sem falar, é claro, no traço, em que fica evidente a inspiração e a influência de Crumb. A escolha das cores também é muito eficaz no quadrinho. Além das referências musicais que permeiam todo o texto.

No posfácio da HQ, Camilo Solano fala sobre Desengano não ter um grande clímax e se sustentar nos pequenos acontecimentos. “E só permanece aquela sensação posterior de que alguma coisa legal aconteceu, sem saber ao certo o que é, mas te faz sentir bem… E acaba”, escreve. E é bem isso aí. Alguma coisa acontece em Desengano. E, sem dúvida, é alguma coisa muito legal.

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